MARIA LUIZA: VIDA DE CRIANÇA

Vida de Criança
Por Gervásio Santana de Freitas

CriançasMaria Luiza saiu de casa e ganhou a rua. Enquanto caminhava, um quinzilhão de coisas pipocavam na sua mente. Ela sabia que tinha de arranjar urgente novas faxinas, ou quem sabe arrumar um trabalho fixo… A pouca quantia de dinheiro que ela tinha, gastou, caridosamente, na rodoviária de Porto Alegre, na compra de uma passagem para Dona Honorina, uma mãe triste que precisava ir enterrar o corpo do filho no interior do Estado e que estava sem grana suficiente… Fez de coração, não se arrependia.

Maria Luiza subiu o degrau e entrou na casa lotérica, onde comprou um cartão telefônico de poucos créditos com o resto do dinheiro. Essa era uma compra indispensável, afinal, para ganhar dinheiro, tinha de arrumar novas faxinas, para arrumar novas limpezas, teria que fazer algumas ligações… Não tinha jeito…

Saindo da lotérica, em seu campo de visão notou algumas crianças que brincavam alegremente na calçada, numa algazarra espontânea e varonil. Enquanto caminhava, por alguns instantes Maria Luiza transcendeu seus próprios problemas e teve vontade de ser igual àquelas crianças, as quais estavam mergulhadas de corpo, alma e coração nas brincadeiras… As crianças são por natureza puras de espírito, sinceras, inocentes, sem as máculas das experiências e vivências egoístas, frustradas ou famigeradas do mundo dos adultos…

As crianças não se preocupam em trabalhar para garantir o sustento e a sobrevivência, são os seus pais ou responsáveis que provêem estas coisas… Limpas de coração, cumprem com obediência as pequenas tarefas domésticas a si delegadas e dedicam empenho máximo na aprendizagem na escola… Inocentes, vivem muito melhor e muito mais despreocupadas que os adultos… Como Maria Luiza desejou ser criança novamente… Mas sabia que tinha de seguir o curso natural das coisas, de sua evolução espiritual, e que, portanto, já tinha crescido e já fazia parte do mundo dos adultos…

Não tinha jeito, Maria Luiza precisaria usar novamente o recurso do fiado. Nádia, a dona do minimercado, por força das diversas vezes que Maria Luiza ficara apertada financeiramente, acabou por se tornar uma espécie de amiga, liberando no caderno algumas mercadorias. Este era um recurso que Maria Luiza não gostava de utilizar-se, mas quando era extremamente necessário, não tinha jeito, era no mercado da Nádia que ela se socorria.

Honesta e cônscia de seus deveres, sempre que recebia dinheiro de suas faxinas e havendo conta no mercado, Maria Luiza se apressava em quitar o débito o mais rápido possível, para voltar a ter crédito novamente, afinal, uma mulher sem crédito não é nada no mundo atual… Só que, desta vez, ela sabia que tinha uma conta em atraso há vários dias na mão de Nádia…

Fazendo os cálculos sobre sua apertada situação financeira, Maria Luiza então enxergou a fachada do minimercado. Continuou firme na sua direção, porém, em frente ao mercado, do mesmo lado da calçada que Maria Luiza caminhava, um senhor idoso apoiado numa bengala aguardava para atravessar a rua, a qual estava movimentada naquele horário.

Imediatamente um filme passou na cabeça de Maria Luiza depois de todas as aventuras e desventuras que vivera na tarde do dia anterior. Deveria ela ajudar ou não aquele senhor idoso a atravessar a rua?

Gostaria de ver Maria Luiza em alguma situação específica? Envie um e-mail para note@texbr.com com a sua opinião, críticas ou sugestões sobre esta crônica.

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